Uma cena aparentemente simples da novela 'Quem Ama Cuida' acabou provocando um debate curioso nas redes sociais nesta quinta, 30.
No capítulo exibido na quarta-feira (29), os irmãos Adriana (Letícia Colin) e Mau Mau (João Victor Gonçalves) aparecem conversando dentro de um vagão do metrô de São Paulo. Inicialmente, eles estão sentados lado a lado. Pouco depois, cedem um dos assentos para outro passageiro e seguem a viagem em pé.
O momento, que dura menos de um minuto serve apenas para desenvolver o diálogo entre os personagens e mostrar o cotidiano do paulistano, porém, foi suficiente para gerar críticas no X, antigo Twitter.
Uma internauta questionou a falta de realismo da sequência. "Quem fez essa cena claramente nunca andou de metrô na vida pq é impossível que tem gente em pé no vagão e a Adriana e o Mau Mau conseguiram 2 bancos livres um do lado do outro", escreveu ao compartilhar o trecho da novela.
A publicação rapidamente repercutiu, mas boa parte dos usuários discordou da crítica.
"Ai gente, mas que rigidez cognitiva é essa que esse povo tem meu Deus, os jovens de hoje em dias não sabem separar ficção da vida real, está em níveis absurdos", comentou Claudio Maciel.
Outro internauta, identificado como oportunidade09, lembrou que nem sempre a experiência no transporte público é igual para todos. "Amei muito de metrô, e tinham lugares sim. E no caso nem todos gostam de ir sentados."
Já Felippe Paixão chamou atenção para um aspecto importante da produção audiovisual. "Vc sabia q isso é novela, tem enquadramento de câmera, tudo."
Na mesma linha, Caxu resumiu a discussão de forma direta. "É uma novela, tem que ter um conceito. Afinal é uma NOVELAAA, não um DOCUMENTÁRIO DA VIDA REAL."
O debate levanta uma reflexão interessante sobre a forma como parte do público passou a consumir obras de ficção. É natural que novelas busquem retratar os costumes das regiões onde se passa, pois a ideia é justamente aproximar a história do espectador.
Mas também é verdade que toda produção dramática faz escolhas para favorecer a narrativa, a interpretação dos atores e até o posicionamento das câmeras.
Em uma cena como essa, o objetivo principal nunca foi mostrar a lotação do metrô paulistano. A intenção era permitir que Adriana e Mau Mau conversassem de maneira clara, sem que dezenas de figurantes bloqueassem a visão do público ou dificultassem a gravação.
Outra sequência em que ouve comentários irrelevantes foi quando um entregador subiu até o apartamento de Fabia (Flavia Alessandra) para entregar um lanche, mas, segundo o protocolo de um aplicativo de entregas, nenhum prestador de serviço vai até a porta da residência de um morador quando se trata de condomínio ou apartamento. Na ocasião, o foco da sequência era somente provocar ciúmes em Ulisses (Alexandre Borges).
Isso não significa que erros devam ser ignorados. A própria novela já foi alvo de críticas justificadas quando, no início da trama, o sistema de som do metrô anunciou a chegada à estação Trianon-Masp, mas Adriana desembarcou segundos depois na estação Sumaré, localizada quatro paradas adiante.
Além disso, a sequência mostrava um trecho elevado da linha passando pela Avenida Paulista, onde o metrô circula exclusivamente no subsolo. Nesse caso, tratava-se de uma inconsistência geográfica evidente.
Talvez o maior desafio atualmente seja encontrar o equilíbrio entre exigir qualidade técnica e compreender que novelas continuam sendo obras de ficção. Nem tudo precisa fser levado ao pé da letra.
No fim das contas, a sensação é de que, muitas vezes, alguns detalhes acabam sendo ampliados apenas pelo potencial de gerar repercussão nas redes sociais. E, em tempos de curtidas, compartilhamentos e engajamento, encontrar 'pelo em ovo' parece render mais comentários do que simplesmente acompanhar uma boa história.